feriado social

Crise na Espanha – a greve geral 14N

Hoje a Espanha inteira entrou em greve. Uma greve convocada pela União Geral dos Trabalhadores, aqui chamada UGT.

Eles convidavam todos, absolutamente todos os trabalhadores da Espanha a entrarem em greve geral hoje, 14 de novembro. Daí o nome 14N. O objetivo era protestar contra o corte nos orçamentos da saúde, educação e moradia da Espanha.

Aderia quem queria a Greve Geral 14N. Eu, por exemplo, fui trabalhar normalmente. Isso sim, tive que ir a pé, porque os serviços de ônibus e de metrô hoje no país eram mínimos. Preferi andar do que esperar mais do que de costume. Fora o fato de ter ido a pé pro trabalho e uma ou outra movimentaçãozinha rápida e isolada, a Greve Geral não afetou diretamente a minha vida.

Mas isso porque eu não estava no centro da cidade.

Em Madrid e em toda a Espanha, milhares de pessoas saíram às ruas para protestar. Bancos, escolas, Universidades, Hospitais, Mercados Municipais, restaurantes, grandes empresas e até o Congresso dos Deputados. Nada disso abriu hoje. E os trabalhadores que estavam no centro e decidiram não aderir a greve foram obrigados pelos protestantes a fechar suas portas. Seus clientes eram expulsos dos lugares e eles eram obrigados a parar de trabalhar. Felizmente, até esse momento em que escrevo estas palavras, nenhum grande acontecimento violento foi registrado.

O que não quer dizer que não teve um outro momento de violência. Mas nada como já vimos outras vezes.

Sou a favor de protestar, ainda mais dada a situação na qual se encontra Espanha. Mas sou contra a violência.

Sou contra todos esses manifestantes que vão de cara tapada, que atiram pedras nas fachadas de lojas avulsas, que queimam lixeiras e destroem o patrimônio municipal.

Foi triste ver a imagem de duas turistas que estavam conversando tomando café hoje no centro. Aposto que elas não tinham ideia do que aconteceria hoje (às vezes, viajando, a gente se despista mesmo) e não entenderam nada quando foram abordadas aos gritos por centenas de manifestantes. Enquanto tentavam entender o que passava uma menina foi até a mesa, pegou a xícara de café e jogou em uma das duas turistas.

Sério? Jogar café em uma turista – que, por certo está, trazendo dinheiro pra Espanha – é protestar contra o governo?

Triste cena.

Imagino se no meu caminho pro trabalho hoje tivesse havido alguma manifestação. O que teria acontecido? Eu teria ouvido gritos porque sou estrangeira? Me mandariam ir embora do país porque estou roubando emprego dos espanhóis? Muito provavelmente, se conhecessem a nova novela da Globo me acusariam de ser colega de profissão da Carolina Dieckman aqui em Madri.

Isso porque sair à rua de cara tapada é fácil. Jogar uma pedra numa loja qualquer é fácil. Inclusive derramar café no colo de uma turista estrangeira também.

Difícil é ir protestar sabendo o que cada um fez pra que o país estivesse hoje nessa situação. Desde escolher mal seus representantes até esperar em casa o dinheiro do seguro desemprego do governo, que na Espanha é de, pasmem, dois anos. Difícil é entender que durante décadas eles viveram além de suas possibilidades econômicas e difícil também é entender que a recém adiquirida faceta empreendedora dos espanhóis veio tarde demais.

Difícil é entender que eu, estrangeira, que vim fazer dois Mestrados numa Universidade particular (gerando dinheiro pra Espanha), quando saio do trabalho (gerando dinheiro pra  Espanha II) vou à uma loja da Zara e gasto somente o que posso e o que está dentro das minhas possibilidades (gerando dinheiro pra Espanha III).

Se eles conhecessem a novela da Globo conheceriam também um pouco da cultura brasileira, e saberiam que nós já estivemos e ainda estamos cheios de problemas. Que o Brasil começou a empreender como saída aos muitos anos de crise pelos quais já passamos. Saberiam que a criatividade nasce da necessidade. Saberiam que muita gente formada no Brasil só conseguiu o diploma porque os pais foram vender coxinha, bolo, jóias e Avon pra levar dinheiro pra casa. 

Quem sabe assim eles entenderiam um pouco que se hoje o Brasil é o país em franco crescimento econômico é porque nós já passamos por maus bocados. E ainda passamos. 

De repente eles entenderiam que protestar vale a pena, que mostrar insatisfação e apontar caminhos e soluções é válido e necessário. Mas que ao chegar em casa essa madrugada, é preciso levantar da cama amanha cedo e fazer cada um a sua parte pra pagar pelos lixeiros queimados, pelos comércios depredados e pelo dinheiro que o país deixou de gastar em um único dia de Greve Geral 14N.

Curiosidade 1: A Greve Geral atingiu também Portugal, França,Itália, Alemanha e Bélgica.
Curiosidade 2: Cerca de 900 vôos foram cancelados hoje por causa da greve. 
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Dany Colares

Jornalista, produtora de vídeo e mestra em TV e Cinema pela Universidad San Pablo CEU, de Madri. Já morou em San Diego, Madri e agora vive em Londres, de onde escreve sobre lugares, pessoas, baladas e tudo mais que descobre em suas viagens pelo mundo.

COMENTÁRIOS

    • Dany disse:

      Mandinhaaaaaaa, gracias, guapa. Fico feliz que pessoas como você compartilhem opiniões, até porque você está aqui, sabe de perto o que está acontecendo. e está vendo como tudo está se desarollando por aqui. Bjo enorme.
      Dany

  1. Daniela disse:

    Gostei MUITO da sua sensatez. E mais ainda que seu blog está com muitas atualizações ; )

    • Dany disse:

      Daniela, muito obrigada pelo elogio. MUITO mesmo. E fico mega contente que vc reparou na frenquencia do blog. Enter tantas coisas pra fazer no trabalho e na vida, nao eh fácil. Mas quando consigo, fico muito, muito feliz! Volta sempre por aqui.
      Beijo grande.
      Dany

  2. Kah disse:

    Otimo texto Dany!

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