feriado social

Porque morar em Madri

Eu queria ser amiga dele. E queria ter escrito os textos que ele escreve. O Jesus Terres é um valenciano, profesor do Mestrado de Comunicación y Branding Digital da CEU, a Universidade onde estudei.

Um cara que entende como ninguém da vida, de comida e de bebida. Mas ele vai negar isso até a morte. Hoje li um incrível texto dele sobre Madri que fiz questão de traduzir pelo absolutamente fantástico que é.

Uma leitora, a Claudia, escreve contando que está a ponto de ir morar em Madri para estudar (como eu um dia fiz) e pede que ele venda Madri pra ela. E assim ele o faz. E este é mais um texto que eu gostaria de ter escrito sobre a cidade mais incrível do mundo. Eu me identifico com a leitora anos atrás e com o Jesus, nos dias de hoje.

E se você se arrepiar como eu ao ler este texto então, sinto informar, é tarde demais: você também já está apaixonado por Madri.

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aspasPara que você tenha uma ideia, minha jovem: te respondo isto usando um roupão de seda olhando pela janela do nono andar do hotel Majestic, em Barcelona, tomando um bloody mary com o firme propósito de mandar embora do meu quarto esta ressaca, fiel como um São Bernardo (que não vai embora por nada nessa vida).

Mas enfim, vamos ao problema.

O problema não é a sua formação educacional (isso você tem muito claro) nem mesmo a sua família (você tem coragem, parabéns por isso) o problema é que você tem medo. Tão fácil. Tão difícil.

Não vou te falar hoje de medo, das mudanças ou das cem (mil) razōes para você fazer suas malas sentada na cama deste seu quarto para o qual você jamais vai voltar. Hoje eu só vou te falar de Madri. E esta resposta vai ter sua graça, porque eu te escrevo – insisto – desde Barcelona, esta cidade cinza que eu já perdoei (seria tão incrível se você deixasse de bobagens, Barcelona) assim que, coragem. Desde o melhor quarto de hotel do melhor andar do melhor hotel de Barcelona eu vou te explicar porque Madri é a melhor cidade do mundo.

E é que Madri é Madri o ano todo, mas Madri nunca é tão Madri como em setembro. As ruas se espreguiçam, caem as primeiras gotas de outono que acham seu espaço entre os lençóis e acabam dentro dos coquetéis do bar O’Clock. Mais um. O penúltimo. A Madri dos atardeceres impossíveis, dos irmãos Alcázar na Gran Via e das meninas com seus moletons nas mesas dos bares bebendo toda a rua Juan Bravo.

Sei que você vai morar no bairro de Malasaña, sei que vão te beijar em algum portão da rua Corredera Alta voltando do bar Tupperware e sei que você vai beber coquetéis horríveis em noites de baixo nível das quais você nunca vai esquecer. Você vai dormir pouco, vai chorar mais do que deveria e vai sentir saudade daquela cama – que ainda te espera – e vai odiar  aquele palhaço que um dia te vendeu esta cidade como inexplicável.

Mas algum dia você vai descer a rua Espírito Santo com alguma desconhecida que você (já) chama  de amiga (o que importa de onde você vem, se você já está aqui?!) e a vida se pintará de acácias e telhas – a cor do céu que abraça a Gran Via quando atardece, e cada passo será a nota de uma partitura que você ainda não entende, mas que já imagina.

E você vai cruzar a rua Recoletos e vai parar na Cuesta de Moyano, na beira do Jardim Botânico e do Museu do Prado. Onde a cada tarde descansam sapatos, fracassos, tesouros, chaves e bússolas sob as capas daqueles livros que esperam, sem pressa, as mãos de outros donos.

E você vai viver mil vidas e vai amar o cinema nas salas Doré, e você vai fazer fila no bar do Cisne Azul – aqueles champignons… E você vai pedir outro vermut (e outro mais) e outra porção de tortilla no bar La Ardosa. Você vai aprender a reverenciar o El Prado – você tem que fazer isso! – e talvez você descubra a arte (isso e necessário, Claudia) em exposiçōes como a do Cezanne no Museu Thyssen.

Passarão os meses, você vai dormir pouco, vai chorar menos e vai lembrar com carinho daquela cama, porque ela já não é mais sua. E nunca mais vai ser. Porque a sua está em Madri.

E um dia, sem mais, não existirá outra cidade.

Porque de fato não há.

 

Obrigada, Jesus. Gracias.
O texto original esta aquí.

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Dany Colares

Jornalista, produtora de vídeo e mestra em TV e Cinema pela Universidad San Pablo CEU, de Madri. Já morou em San Diego, Madri e agora vive em Londres, de onde escreve sobre lugares, pessoas, baladas e tudo mais que descobre em suas viagens pelo mundo.

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